Eu não sou sua lição de vida!

Essa é uma crônica escrita sob encomenda. Após uma demanda de pessoas que acompanham meu arsenal de textos repetir “escreva sobre isso, escreva sobre isso…”. Nunca tive problemas em pôr minhas limitações em pauta, então vamos “escrever sobre isso”.

Dia desses, assistia uma palestra sobre ciência e pesquisa. Em meio seu discurso, o palestrante me puxou para o meio do palco e pediu a comunidade que assistia: “descrevam a Sarah“, como uma forma de exemplificar suas falas. Logo, ouvi em sequência: “baixinha”, “cabelo cacheado”, “cintura fina”, “olhos negros”, “lábios grossos”… Nenhum componente daquela plateia citou o óbvio, o que todos veem e sempre fixam o canto do olho por mais alguns segundos. A atividade foi interrompida pelo professor, que pronunciou: “gente, podem falar o que estão vendo!” Em uníssono, citaram minha deficiência física. Foi uma experiência divertida, mas me fez refletir sobre o modo como as pessoas me viam, como viam qualquer outro indivíduo com uma limitação física ou mental.

Ser deficiente física nunca foi uma barreira pra mim. Tive uma infância feliz nas praias do Paraná, estudei regularmente, curso a faculdade que sempre quis em uma instituição federal, cultivei amigos, entrei e saí de relacionamentos, vivi momentos de glória e dias escuros, também. Se foi difícil? É claro que foi… Mas não é fácil para ninguém.

Lembro-me de ser sempre a última a ser escolhida nos jogos da escola, lembro-me de milhares de desculpas esfarrapadas para que eu não participasse dos esportes, lembro-me de ser classificada como “café com leite”. Nos passeios escolares, ia sempre grudada na barra da saia das professoras. No colégio, cada passo meu era estritamente vigiado para não ocorresse nada de errado, para impedir que os “meninos grandes” chegassem perto de mim e fizessem alguma maldade por eu não ser como eles. Por muito tempo me impediram de crescer, e quando aconteceu… Foi de uma vez só! A vontade de descobrir o mundo era maior que qualquer dificuldade. E a cada pequena conquista, comemorava como alguém que achou ouro na rua. E então, amarrando cadarços, abrindo garrafas e fechando a fivela do cinto sozinha, desenvolvi um senso de independência que me assola até hoje. Ainda bem!

A sociedade tende a criar a imagem do perfeito deficiente, e me assusta a ideia de que existe um padrão até pra isso! O perfeito deficiente é aquele que reproduz a imagem de um exemplo a ser seguido, uma lição de vida. É aquele para qual as pessoas sem deficiência vão olhar e dizer “poxa, se você consegue fazer isso, eu também posso conseguir!”. O perfeito deficiente é pacífico, não fuma, não bebe, não sai para dançar quando a noite cai… E faz tudo isso como uma forma de valorizar sua vida. Mas, francamente? Nem eu, nem milhares de pessoas com deficiência por aí queremos ser seu instrumento de autoajuda. Eu não sou sua lição de vida! É uma honra inspirar pessoas todos os dias, mas não deve ser uma obrigação.

Já enfrentei olhares de reprovação ao encontrar conhecidos em festas, seguidos de frases como “você, por aqui?”. No meio acadêmico, frequentemente ouço “poxa, você fez isso?”. Ademais, e por mais dolorido que soe, ainda há o fardo da objetificação. De lidar com a curiosidade dos homens sobre “o que uma deficiente física pode fazer na cama?”, ou até mesmo “você é bonita, pena que…”. Acredite, a maior ausência de acessibilidade está na falta de educação das pessoas. O maior preconceito não é o que vêm em forma de expressão de ódio, mas de desdém.

E por último, sim, eu vivo uma vida plena e feliz. Luto diariamente ao lado de milhares de pessoas para ter meus direitos cumpridos, mas não sou obrigada a corresponder suas expectativas de ser seu exemplo de superação, não sou obrigada a compreender sua falta de informação. Cada ser humano é um universo, com suas limitações e gatilhos, e a verdadeira superação é uma batalha do cotidiano. Superar não é ser deficiente físico e seguir normalmente, superar, é suportar todos os obstáculos físicos e simbólicos com um sorriso no rosto.

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4 comentários em “Eu não sou sua lição de vida!

  1. Oi Sarah, eu adorei seu blog e principalmente sua página com seus quotes maravilhosos. Queria deixar um comentário em um dos seus posts, olhando suas categorias resolvi conhece-la melhor com a categoria “pessoal” até chegar aqui nesta postagem, o que me chamou atenção não foi seu texto maravilhoso sobre não querer ser uma lição pra alguém, e nem pela sua deficiência, e sim por você ser uma pessoa que já passou por obstáculos na vida e vem superando eles a cada dia, não sei como falar em uma palavra melhor, mas sinto “inveja” do seu jeito de levar a vida não se importante com que os outros pensem ou falem, pelo seu texto e pelo que entendi da pra ver que você é uma jovem forte, de coragem. Para esclarecer melhor meus elogios, resumo aqui minha história, nasci com uma deficiência no femur, e fiz sete cirurgia para corrigir, como os médicos diz, minha deficiência podia ser corrigida, mas claro eu nunca seria “perfeita” como uma pessoa que nasce sem deficiência alguma, após longos anos de sofrimento, aos 14 anos fiz a última, e em uma das pernas ainda tem um desvio, (muito pouco) para mim diante de tudo que passei NÃO É NADA perto do que eu tinha, mas aos olhares das pessoas que te julgam com apenas aquele olhar de 5 segundos que podem olhar tudo em você mas sempre o olhar vai para sua deficiência ou sua imperfeição para olhares de alguns.. tudo que você falou que passou no colegial eu passei, principalmente o preconceito entre os colegas, mas eu não vim aqui só pra compartilhar minha história, penso como vc, não quero ser exemplo, mas também não quero ser aquela “digna de pena” que não é capaz de fazer nada, infelizmente ainda carrego um peso em mim, não tenho muito auto estima, e chego a sentir vergonha de mim mesma, eu estou superando isso a cada dia, aos 21 anos já superei muita coisa, mas sei que ainda muito a ser feito, preciso muito me amar mais e esquecer o que as pessoas falam ou pensam, e seu texto me fez repensar sobre isso. “Acredite, a maior ausência de acessibilidade está na falta de educação das pessoas” Essa frase diz tudo, é tantas coisas sendo falada atualmente, preconceito, racismo…mas ninguém nunca fala a respeito da educação das pessoas com relação as pessoas com deficiência. Só espero que um dia tudo isso seja diferente. Obrigada Sarah. Vou continuar te acompanhando por aqui 🙂

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    1. Poxa, eu que agradeço por ter vindo até aqui e compartilhado comigo sua história! Me passe seus contatos, vamos conversar, trocar figurinhas e experiências! É complicado ser deficiente físico em um mundo onde as pessoas não estão preparadas para lidar com as diferenças, mas eu insisto em acreditar em um amanhã melhor, e não deixar que essas pequenas coisas estraguem meu cotidiano. A superação é um exercício diário, que a gente vai construindo a cada dia até estar autoconfiante o bastante. E no fim, isso é até bom… Pois nada nos deixa mais fortes e sábios que superar! Obrigada por me acompanhar, um abraço ❤

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  2. Eu que agradeço novamente, voltei aqui só pra procurar sua resposta rs. Vou passar o contato do meu novo blog que estou iniciando, já tenho um mas estou me desfazendo deles aos poucos (http://edificiosdaalma.blogspot.com.br/) meu facebook (https://www.facebook.com/taciane.souzaa) e meu e-mail (edificiosdaalma@gmail.com) …Exatamente as pessoas não são preparadas, mas também não procuram entender, de tudo que passei eu penso que as pessoas realmente acham que é algo de propósito não sei explicar mas já cheguei a dizer a um colega do colégio que eu não tinha pedindo pra nascer “assim” porque alguns preconceitos da a entender que eles culpam as pessoas, é totalmente loucura e ignorância pensar dessa forma mas ainda tenho a esperança que isso vai mudar.
    E é bem assim mesmo eu supero a cada dia, é como amadurecimento, vem com um tempo, mas vem, e supero. Obrigada você ❤

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