Eu passarinho

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Você pode ler esse texto escutando: Passarinhos

Era mais uma tarde de meio de semana. Clima de missão cumprida por mais um dia de trabalho árduo. Suor na testa, peso nas costas e vista do pôr do sol através da janela do ônibus, o mesmo que era visto por grandes empresários de seus prédios milionários, parecia ser pintado a mão. Suspiro fundo, dedilhando a janela do transporte e tentando acompanhar a paisagem misturada com a selva de concreto.

A cidade, a aquela hora, revelava sua face mais caótica. Carros enfileirados, empoeirados, reflexo do mais típico horário de pico, onde a população voltava para casa depois de tantos afazeres, assim como eu. Agindo no modo automático. A moldura desse quadro eram prédios, comércios, escritórios e mais prédios. Enquanto isso, a massa dançava uma coreografia robótica e sem graça.

Eram pessoas, mas eu via pássaros. Presos em gaiolas de metal, mas em uma poltrona confortável. Já não cantavam mais, sequer batiam as asas. Sugados pela rotina desmotivadora, perderam a energia, a criatividade, a intuição. Ainda assim, corriam apressados em busca de seu ninho. De entrar novamente no casulo e mesmo que por pouco tempo, fugissem da bagunça que os aguardavam no dia seguinte.

As expressões eram sempre as mesmas: de seriedade. Nenhum suspiro apaixonado, nenhuma alma livre, até as crianças eram vítimas desse vírus que lhes tirava a inocência. “Como ordenar essa desordem?” – Perguntava com a testa colada sob o vidro que dava acesso aquele universo paralelo. Sem querer, estava envolvida. Procurava, com petulância nos olhos, por um pequeno feixe de luz. Por qualquer pássaro, por menor que fosse, ainda não atingido pelo velho sistema.

Dentre a feição furiosa de um senhor engravatado em seu carro importado e da vendedora cabisbaixa no expositor da boutique, havia um motorista de ônibus sorridente. Mesmo amarelo e revestido por seu bigode atrevido, aquele sorriso refletia uma alma em paz. E eu podia sentir o vento de suas asas a metros de distância. Ria sozinho, como quem acaba de ouvir uma piada, como criança ganhando doce. Seu voo não era alto, mas veloz.

Ansiosa por mais, senti o zunido de mais asas. Vinham de uma passarinha no alto de seus 70 anos, que mastigava uma coxinha enquanto esperava a condução. Era um voo lento, mas tranquilo e preciso. Carregado de história e registrado por marcas que o tempo havia deixado. Era visível que ela não pararia tão cedo.

Por fim, um jovem casal me surpreendeu. As mãos cruzadas, a conversa através da troca de olhares enquanto atravessavam a avenida dizia muito sobre esse casal de pássaros. Pareciam distantes daquela realidade tão limitadora. Voavam alto, acompanhados de sua juventude inesgotável. Encontravam ninho um no outro.

A ida para casa pareceu um pouco mais confortável depois dos gatilhos de esperança. Ao descobrir que ainda há riso, ainda há corações quentes, ainda há encantamento. Com pássaros em forma de gente para rabiscar o céu das ruas, a cidade parecia mais bonita. Nem todos estavam engaiolados, e mais portas iriam se abrir, dando acesso a tão temida liberdade. Talvez, liberdade fosse o remédio dessa geração de pássaros doentes.

Se eles passaram, quem sabe um dia eu passarinho.


Sarah Santos

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2 comentários em “Eu passarinho

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