Ai que saudade d’ocê

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Você pode ler esse texto ouvindo: Me Espera

Gostaria que soubesse que fico bem quando está longe. Faço as mesmas piadas, saio com os mesmos amigos, durmo com as mesmas orações. Mas falta algo… Que não deixa meu sorriso ser o mesmo, que me faz suspirar à toa e lembrar de você sempre que o tempo permite. Ouço sua risada quando bebo sozinha, sinto seu cheiro sempre que chego em casa e me lembro piamente de seu jeito ansioso quando vejo os livros que esqueceu no meu quarto. É, meu bem, saudade é para os fortes…

Tenho seguido todos os conselhos e recomendações, como se estivesse aqui. Tomo os remédios nos horários certos, tenho estudado e mantido a cabeça ocupada, como manda a lei. Você está sempre presente e é como se nunca estivesse pegado a estrada, mas o colo, o carinho, as palavras de conforto sempre fazem falta. A vida é feita de idas e vindas e nós nunca fomos de ficar muito tempo no mesmo lugar. Também torço e espero que tenha muitos cenários novos a descobrir, mesmo quando eu não puder estar por perto. Mas nunca vou me acostumar com despedidas.

Dizem que relacionamentos são difíceis, mas podemos fazê-los fáceis se eu abraçar suas peculiaridades e você aceitar meu gênio complicado. Afinal, não há divergência que resista à paciência, empatia e diálogo. Também, reza a lenda que a distância afasta as pessoas, lenda mesmo… Pois me sinto cada vez mais próxima. Compartilhando minhas histórias, medos e segredos, contando sobre a sorte que foi te conhecer para as pessoas, lembrando de ti como meu menino. Meu homenzinho com jeito de criança.

A saudade aperta, mas não precisa doer. A gente dá um jeito! Conhece pessoas, supera qualquer circunstância, faz e acontece por onde passa, conquista o mundo. Mas no fim do dia, sempre teremos um ao outro para voltar. Eu te espero. Você me espera.

Entre um “até logo” e um “voltei”, existe um mar de saudade.

Eu não sei nada sobre o amor

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Você pode ler esse texto ouvindo: Oração

Eu poderia me declarar para você. Pegar na sua mão como naquela velha primeira vez e reproduzir todas as trocas de olhares que me fizeram ter certeza de aquelas faíscas eram reais. Poderia escolher cuidadosamente as palavras mais bonitas que trouxessem algum calor para o seu coração, e deixasse com que esse calor aquecesse todo o resto. Poderia ser tão persuasiva quanto uma forte candidata ao prêmio que é sua companhia… Mas eu não sei nada sobre o amor.

Eu poderia fazer charme. Sorrir mais, chegar mais perto, até o seu mundo se tornar o meu. Eu poderia cruzar as pernas como uma perfeita dama, conversar sobre história antiga e os mais variados tons de esmaltes existentes… Se eu soubesse falar sobre isso. Eu poderia representar a perfeita figura da garota completa: bonita, simpática e inteligente. Mas continuo mediana, mesmo depois de tantas tentativas. Afinal, eu não sei nada sobre conquista.

Sua luz me deixa confusa. Não sei o que esperar, de que maneira esperar e o que fazer enquanto não chega. Mas vai chegar… Ah, uma hora vai. Quando canso, tento ir embora. Porém, na partida seus olhos me puxam novamente para o mesmo lugar de onde nunca deveria sair.  A inércia me incomoda, mas estacionar no seu peito faz com que eu me sinta em casa. Uma passarinha aconchegada em seu ninho. Eu deveria deixar isso pra lá, mas não sei nada sobre partidas.

No meio do caminho, começo a te odiar. Me vêm a cabeça que isso tudo é resultado de um plano mal feito para me manter por perto quando sentir vontade de alguém. “Qual é a sua, garoto?“, esperneio, bato, uso da ironia como minha arma secreta. Escondo os mais veementes sentimentos no mais obscuro da minha alma para expressar apenas o que me interessa, e não deve lhe interessar. Porque eu não sei nada sobre coerência.

Me perco em uma tentativa absurda de manipular o que já não tenho controle. Faço uma prece rápida pedindo por alguma resposta concreta, talvez, intervenção divina seja a solução. Penteio os cabelos, refaço a maquiagem e reviro o guarda-roupa mais uma vez, em busca te algo que capture seu olhar por mais de três segundos. Escrevo um monólogo para relembrar de todos os seus defeitos, como esse aqui. Mas não me arrisco a amar… Pois eu não sei nada sobre o amor.


Sarah Santos

O mal da reciprocidade

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Você pode ler esse texto escutando: Crazy – Daniela Andrade

Nossa geração é viciada em reciprocidade. Inicio o texto assim, grosseiramente, sem devaneios e sem dúvidas. Talvez seja a única opção viável em um mundo onde o amor é cada vez menos valorizado, mas ainda assim, é a mais precipitada das alternativas. Porque isso desvia o significado do amor, e em uma tentativa desesperada de se preencher, ele acaba sendo vendido, negociado.

É delicioso dar afeto e recebê-lo em troca, é uma honra ter de volta toda a dedicação que você presta a um indivíduo. Mas toda vez que doamos algo esperando devolução, o fazemos por mero interesse. E fazer algo por mero interesse tira toda a verdade de sua intenção. Quando se tem afeição por alguém, o zelo é inteiramente voluntário e despretensioso.

As músicas, as senhoras experientes, os moradores de periferia e até os mais nobres poetas garantem que amor não se compra, e aí mora o seu mérito. Pois não há nada mais digno que oferecer sua devoção só pelo prazer de entregar o que há de mais sincero dentro de si para o outro. Mas tamanha beleza foi quebrada quando a sociedade, em seu desespero, passou a perseguir a reciprocidade, colocando à venda o seu amor.

Com toda a pressão dos dias de hoje, o ser humano sente-se cada vez mais inseguro, hesitante. Uma cultura que cultiva pessoas cada vez mais medrosas não nos deixa outra alternativa que seja procurar aconchego nos braços de nosso próximo, e fazer qualquer coisa para obtê-lo… Até mesmo comercializar algo que deveríamos dar de graça: nossos sentimentos. Uma atitude esperta, porém fútil.

Se trabalhássemos a paciência e acreditássemos em nosso eu interior, a reciprocidade não seria o padrão ideal do amor. Que vivamos sem essa preocupação, por um mundo onde o único amor obrigatoriamente recíproco seja o amor próprio.


Sarah Santos

Nossas linhas tortas

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Você pode ler esse texto ouvindo: Janta – Marcelo Camelo

Você tem um jeito engraçado de me atrair. Chegou sinalizando de longe, entrou sem bater na porta, não tirou os sapatos ou pediu licença, e bagunçou um coração que eu havia passado muito tempo arrumando. Foi mal educado da sua parte me deixar encantada sem a pretensão de ser clichê.

Sentou-se na minha mesa e me convidou para jogar um jogo. Por falta do que fazer, eu aceitei. Desde então, temos sido plenamente subliminares. Cada passo em sua direção, cada “bom dia” longo demais, cada olhar trocado é minuciosamente contado como parte de um plano muito maior. Resolvi que você seria meu próximo erro.

Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Se for assim, somos um poema com estrofes bagunçadas, gramática errada e caligrafia ilegível. Levei um bom tempo para crescer, mas rejuvenesço um ano cada vez que fico vermelha ao receber seu olhar. Li nossas linhas tortas milhares de vezes procurando algum sentido, mas desisti.

Minha personalidade é complicada, seu perfil é duvidoso… Mesmo assim meus olhos insistem em brilhar, meu coração permanece palpitando.  As chances dar errado são grandes… Mas igualmente assustadoras quanto as de dar certo.

Quer saber? Vou deixar o destino falar.


Sarah Santos.

Fiquei com preguiça

 

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Você pode ler esse texto ouvindo: Anything Could Happen – Ellie Goulding

Ele é bonito. Consideravelmente inteligente, adoravelmente cavalheiro, tem todos os adjetivos que qualquer garota procura. E todos os defeitos também. Dentre todas as donzelas bem resolvidas do salão, resolveu sentar-se ao meu lado. Ele me escolheu. Mas eu escolhi viver…

A conversa foi boa. O flerte foi quente. O beijo, então… Nem se fala! Mas eu não liguei no dia seguinte. Nem na semana seguinte. Se ligasse, perderia a graça. Não liguei porque eu sabia que aquela novela estava apenas começando.

Os capítulos subsequentes relataram um casal atrapalhado tentando ser algo, além de atrapalhados. Eu deveria ter lhe stalkeado em todas as redes sociais, eu deveria perguntar aos seus amigos se você fala de mim com frequência. Eu deveria ter seguido à risca o roteiro… Mas tive preguiça.

Seu cheiro é extremamente convidativo, e até me deu vontade de ser mais que uma exímia colega. Mas sabe como é… Eu tive preguiça. Você me fez querer ficar! Dentre tantos outros garotos para os quais passei meu telefone errado, você foi aquele para quem eu ofereci mais que um sorriso, mais que uma jogada de cabelo, muito mais que uma noite só. Mas não conseguiu vencer minha preguiça de romances.

Eu queria amar você. As borboletas em meu estômago e as pupilas que se dilatam quando você chega não negam os sintomas de uma paixão atrevida. Mas a vida é curta e eu sou uma só. Saiba, garoto, que você me tem… Mas eu ainda tenho preguiça.

O amor não é para preguiçosos como eu…

Sarah Santos

Não se apaixone por mim

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Você pode ouvir esse texto ouvindo: Love Song

Você pode me levar para uma festa. Daquelas com um jogo de luzes tão pertinente que me deixe mais embriagada que vodka, e vai fazer com que eu queira me jogar em seus braços. Vou sentir vontade de rir dos seus passos de dança, mas me juntarei ao seu ritmo… Sabe, só por educação.

Você pode me levar para jantar. Segurar minhas mãos em cima da mesa para que todos do estabelecimento vejam que somos um casal. Então, pode olhar no fundo dos meus olhos negros e dizer que eles te hipnotizam. Eu ficarei lisonjeada, mas ciente de que você diz isso para todas.

Você pode falar do meu cabelo. Falar das minhas roupas. Falar das palavras difíceis que eu utilizo no meio das nossas conversas. Pode dar uma crise de ciúme no meio da rua! E depois disso, correr para longe dizendo que eu não presto e não valho tão a pena assim.

Mas não se apaixone por mim! Dê um passo para trás antes do seu coração acelerar, vá embora e finja que nunca ouviu meu nome antes. Eu não sou desses relacionamentos convencionais, e você não é dos alternativos. Eu posso ser tudo o que você quiser, posso lhe dar tudo o que quiser. Mas, por favor, não se apaixone por mim.


Atenciosamente, Sarah Santos.

Quando o amor invade a porta

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Você pode ler esse texto ouvindo: This Love

A meteorologia avisa sobre a chegada da primavera. O que antes era cinza chumbo agora possui um colorido inigualável, até o ar torna-se mais leve. Só um idiota não se contagiaria com tamanha obra da natureza.

Meus amigos disseram que é tempo de amor, mas eu insisti em fingir que não ouvia. Ignorei toda a publicidade dos outdoors que falavam sobre amor, desprezei toda essa ideia boba de que um dia ele chega. Até você aparecer.

Mas o amor é rebelde. Faz o que bem quer na hora que bem quer. Ele bateu uma, duas, três vezes. Estava ocupada demais faxinando meu peito para abrir a porta. Então ele invadiu! Veio de supetão sem pedir licença e bagunçou tudo de novo.

Tentei pedir para que voltasse mais tarde ou fingir uma desculpa esfarrapada dizendo que estava ocupada. Mas ele deixou meus planos pra depois. Abriu a geladeira e bebeu meu melhor vinho, botou os pés pra cima, como se a casa já fosse dele há muito tempo.

“Como esse amor é mal educado” – pensei. Apropria-se do que não lhe pertence, causa sensações e pensamentos involuntários. Ele não me deu alternativa. Tentei expulsá-lo de tantas formas, mas a única opção foi convidá-lo pra ficar.

Quer saber? Foi a melhor visita que já recebi.


Atenciosamente, Sarah Santos.