Espelho

espelho

O relógio anuncia 7:00 A.M., mas acordo dez minutos antes do despertador, pois boas moças não se atrasam para afazeres cotidianos. Saco o celular, a agenda e o calendário afim de ouvir o mundo que me chama com urgência para a vida fora dos meus lençóis.Eleições nos Estados Unidos, crise econômica, desnutrição infantil, bolsa de valores, o trabalho de quinta-feira, a oportunidade perdida da semana e a oportunidade da semana que vem, as mídias sociais, a dengue, o terrorismo, o impeachment,o trânsito, o clima, a roupa para pegar na costureira. Tantas coisas me fazem tentar recordar quando foi que esqueci de mim.
Levanto preguiçosa após uma prece, cumprindo o ritual da matina. Ao caminhar pelo pequeno cômodo, cruzo meu olhar com o olhar de meu reflexo. E me permito hipnotizar. Todos esses traços de cansaço mesmo após uma noite dormida merecem um minuto de atenção. Observo o franzir da testa, as unhas descascadas, a aparência ansiosa, a sobrancelha por fazer. A feição mal humorada parece querer dizer algo:
“Está precisando hidratar o cabelo. Já disse que ama seus pais hoje? Deveria ser uma das primeiras coisas que faz no dia. Pare de adiar seus planos e conclua algo. Lembre-se que você é a única réu de sua própria insegurança. Seja uma lembrança bonita na vida das pessoas, jogue seus medos para longe e saia da zona de conforto. Deixe o celular de lado e vá atualizar-se de si. Entre menina e mulher, seja você mesma.”
…Quando reparo que meus olhos no reflexo dentro daquela moldura é o espelho de minha alma.

Sarah Santos

O que aprendi com o voluntariado

voluntariado
Você pode ler esse texto ouvindo: Vai Ser Assim – Criolo

Vivemos em um mundo onde o importante não é o ser, ou o ter… Mas o parecer. Se faz muito pouco pelo próximo e quando faz, espera-se algo em troca. A mídia nos colocou óculos para enxergar apenas o mundo que está a nossa volta, e não ir além disso. Mas do lado de lá não são apenas flores. E quando você cruza a linha imaginária da parte do mundo que o sistema ignora, percebe essas diferenças e se recobra de muita coisa.

O voluntariado me ensinou a ter sensibilidade. A jogar fora todos os meus preconceitos e me colocar no lugar do outro, sentir suas dores e seus prazeres. Vivemos um tempo de ativismo de sofá. Onde pregar “mais amor, por favor” e compartilhar imagens de solidariedade uma vez por semana na internet já está bom demais. Afinal, o conformismo é muito mais digerível.

Ser voluntária também me trouxe autoconhecimento. Dentro da nossa zona de conforto, temos muitas convicções. Sair da minha bolha e ir para lugares totalmente divergentes a minha realidade, conhecer pessoas, ouvir seus relatos e oferecer o que eu tenho de melhor trouxe mais sabedoria do que qualquer escola que já frequentei. Ver o mundo de outras maneiras, por outras culturas, fez parecer tudo o que eu tinha vivido até ali fácil demais.

Além disso, o voluntariado também me trouxe alegria e amor. Quando suas virtudes são compartilhadas, elas se multiplicam de forma que você se torna uma pessoa melhor e torna a outra pessoa melhor. O amor é algo que se prolifera quando se divide… E sortudos são aqueles que tem amor para si e para distribuir. Cultivar sentimentos bons nos fortalece para o cotidiano, nos faz mais felizes.

Acima de tudo, ser voluntária me ensinou a ter atitude. É muito bonito ter um discurso humanitário e inclusivo, carregar palavras bonitas na ponta da língua, ser paciente e educado. Mas além da beleza, há dignidade no ato de sair da sua casa e ir ajudar o próximo com ações. Ajudando outras pessoas, aprendi a sonhar como algo possível e prático; transformar o meu ideal de um mundo melhor em práticas que não vão mudar o planeta da noite pro dia, mas fazer parte de um processo de cura na humanidade.

Assinatura oficial

Texto vivo de sentimentos mortos

typewriter
Você pode ler esse texto ouvindo: Unwritten – Boyce Avenue/Diamond White

Ser escritor é foda. Traduzir os sentimentos em palavras exige sangue frio. Escrever é desafiar sua mente e coração todos os dias, perguntando: “o que você tem para mim hoje?”, e sacudir, amassar e espremer a alma até que saia algum verso, por menos poético que seja. Escrever é concretizar as dores e guardá-las em um armário, para estarem sempre a sua disposição quando precisar passá-las pro papel.

Aprendi sorrateiramente que ser um escritor também vai além disso. Pois qualquer um pode falar do que lhe acontece em volta, e isso é adoravelmente saudável. Vomitar emoções é preciso, para não morrer em um refluxo. Mas o verdadeiro artista escreve sobre o que nunca viveu, sensações que nunca experimentou… Ou até mesmo experiências das quais jamais quer viver novamente. Essa é a arte de provocar, de reciclar feridas.

E nessa reciclagem o lixo vira joia. As dores crescem e viram palavras, que se unem a outras palavras e viram versos, que quando cultivados… Dão origem as mais lindas criações. Por isso, perdi o medo de sofrer. Por isso Vinicius de Moraes casou-se nove vezes, por isso Carlos Drummond morreu do coração, por isso Mario Quintana sofria de alcoolismo. Ou você acha que os maiores gênios algum dia tiveram estabilidade?

Não ouso escrever sobre sentimentos ainda quentes, pois isso pode ser perigoso. Versificar a vida abre portas para o imaginário, e uma vez lá… Você não vai querer voltar. Mas arrisco dizer que a escrita é uma das armas mais poderosas já vistas… Literatura é calmaria, é o reflexo da alma, mas atinge pessoas como um tiro. Quando mais escreve, mais apontada torna-se sua mira.


Sarah Santos

A vida é uma dádiva

 

way.jpg
Você pode ler esse texto ouvindo: I Lived – OneRepublic

De todos os meus devaneios poéticos sobre a vida, uma coisa é certa: ela é um presente. Sem romantização, sem aquela visão positiva de que no fim tudo dá certo, porque sequer existe certo. Viver é um pacote que recebemos com um arsenal de aprendizados. Podemos escolher entre aproveitar o presente até que se acabe ou deixá-lo armazenado em um armário, com medo de estragar.

Pra quem escolhe abrir o pacote, já adianto: todo o conteúdo é passageiro. Pessoas, culturas adquiridas, bens materiais e momentos marcantes. Mas de tudo, se extrai apenas o óbvio: uma aquisição. Nascemos nus, e com o passar do tempo (e das experiências), vamos nos vestindo de lições. No fim, estamos tão bem agasalhados que a carcaça torna-se pesada. Fica um pouco difícil andar vestido de tanta sabedoria, mas lhe garanto, as peças são muito bonitas.

É preciso paciência ao esperar o surgimento do arco-íris após uma chuva. É preciso perseverança para os dias difíceis. É preciso resiliência diante das decepções. É preciso sabedoria para aproveitar cada segundo dos bons momentos. Se for pra viver errado, é melhor guardar a embalagem. Afinal, não sabe viver? Não desce pra vida.

Você tem todo o direito de chorar se quiser, tem todo o direito de parar por um tempo caso sinta-se cansado. Você também pode se apropriar da dor do outro e segurá-lo quando parecer complicado. Mas não vá passar por cima de ninguém, viu? Não faça com os outros o que não gostaria que fizessem com você, pois as estrelas sempre se alinham novamente.

Deus nos deu o imprevisto na bagagem. E a ideia de não ter ideia do amanhã é incrível! Podemos lutar por um futuro melhor, mas ele continua sendo indomável, fruto de nossas próprias escolhas e ações. Você planta uma maçã hoje e a cultiva por um tempo… É provável que haja resultados, mas nem sempre ela germina.

Algo é certo: estamos caminhando de encontro para a morte. E isso não importa, pois a parte relevante é o que fazemos enquanto ela não chega. Você tem sorte por respirar, o que vier depois é lucro…

Sarah Santos.

 

A esperança em tempos de lama

lama

Mariana era uma moça bonita de sorriso exuberante. Mostrava-se tradicional, dona de grandes histórias, exímia sabedoria, carregava em si um arsenal de memórias encantador. Da alegria do carnaval à toda sua referência cristã, ela chega, faz e acontece. Mas encontrou a lama. Lama essa que levou o verde, o amarelo e o azul também… Varreu toda sua beleza e deixou o breu, o caos.

Mariana era livre, mas privatizou. Mariana teve sua riqueza saqueada. Perdeu as roupas, a dignidade, a identidade. A mídia? Virou as costas, foi tão suja quanto a lama que lhe tomou conta, rendeu-se à mediocridade da censura. Os responsáveis pela menina mulher a largaram nas mãos de homens maus que pouco davam importância para sua inocência. Pobres pais, pobre país!

A menina Mariana estava nua e seu sangue era marrom. Os vizinhos comentavam em burburinhos sobre o que havia acontecido com ela, pois muito pouco se falava sobre isso. Mariana precisava de ajuda, que lhes dessem vida novamente, ou restituíssem o pouco que sobrou.

Mas em Mariana, até no caos se acha flor. Até no obscuro se acha amor. Ela estava machucada, mas não sozinha. Estava devastada, mas era assistida por uma plateia que se compadecia de sua dor. Ela era a protagonista de um drama, mas os holofotes estavam todos sob seu rosto. E enquanto houvesse um pouco de bondade, um grão de fé e humanidade, a menina Mariana continuará viva.


Sarah Santos

De quantas cicatrizes você é feito?

scar
Você pode ler esse texto ouvindo: Survivor – Clarice Falcão.

Lembro-me de ter vergonha das marcas do meu corpo. Evitava decotes e blusas que mostravam a barriga, afinal… A beleza deve ser lisa, limpa e livre de cicatrizes. Relacionava isso com meu conceito de felicidade também, tendo-a como aquele sentimento que só existe na ausência de problemas, na inexistência de qualquer preocupação.

Mas a graça da vida está na complexidade, e a gente se engana ao pensar que todas as coisas boas estão na beleza. Nossa caminhada é repleta de pedras, armadilhas e tropeços, e nem sempre conseguimos evitar os tombos. Com os tombos, não conseguimos evitar os machucados.

Em um primeiro tombo, não sabemos ao certo como se levantar. Olhamos meio sem jeito pra cima, perguntando-se: “por que caí? Eu jurava que andava em linha reta…”. Mas questionar é perda de tempo, coisa de principiante.  Logo, surge a cicatriz! Aquela marca que causa repulsa, que foge aos padrões e lhe faz se perguntar se realmente merece ela. As primeiras quedas podem vir de uma decepção cultivada por expectativas, e o modo como você encara ela é fundamental para determinar como vai seguir lutando dali para frente.

Você segue a caminhada, andando meio torto, com passos desalinhados… Mas a cabeça erguida. E isso não te impede de tombar novamente. A segunda queda pode ser causada por um abandono, geralmente, por indivíduos aos quais éramos apegados. É o ponto de sentir-se enfurecido… Pois a verdade, quando vem à tona, sempre enfurece. Mas ninguém cai duas vezes da mesma forma. Com um pouco mais de coragem, suportamos o nascimento de uma segunda cicatriz, dessa vez maior.

Também somos colecionadores de experiências, de momentos que nos proporcionam sensações novas e revigorantes… Ou sórdidas. O terceiro tombo é o mais dolorido. Aquele em que ao se levantar, você não se conhece mais… Não lembra quem era e quais são os seus princípios. O corte é profundo e a cicatrização pode levar um certo tempo. Mas de queda em queda, a gente aprende o manual. E dessa vez, até se consegue tirar um aprendizado, ou uma porção deles. “Olhe para os lados enquanto anda”, “Não confie em estranhos”, “Vá devagar”. Então, os conselhos da sua mãe começam a fazer sentido, e a partir disso você sente-se pronto para dar a mão a outras pessoas caídas também.

Logo, olha para si mesmo e observa-se repleto de cortes, bandaids e sinais dessa coletânea de quedas… Porque levantar-se também é um processo que deixa alguns arranhões. Mas a subjetividade está nas cicatrizes! A história está nas cicatrizes! A marca de sobrevivência está nas cicatrizes. Elas são as trilhas que mapeiam sua história. E as melhores memórias e lições surgem desses cortes que um dia doeram, mas hoje, enfeitam o corpo.

É importante cultivar as cicatrizes.


Sarah Santos.

Uma carta para minha mãe solteira

mom

Todos os contos de fada contam com uma princesa e um príncipe, uma história de amor e o esperado final feliz. Nossa história é alternativa! O galã se tornou sapo logo após o beijo, e tomou o papel de vilão. A mocinha sentiu-se desolada… O que faria sem o seu amor? E para o segundo capítulo, surgiu a mais sublime forma de afeto.

O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. O amor nunca perece. E nenhum príncipe é digno de nos oferecer isso. O escritor desse conto retirou um pedacinho seu para que eu existisse, para dar alegria a sua vida e ser o sentido da minha. Pergunto-me como o acaso te fez ser minha genitora.

A senhora me fez passarinho. Guardou-me por nove meses para que eu nascesse sadia, construiu nosso ninho com cuidado, saía em buscas intermináveis para me dar alimento. Me ensinou a andar, me ensinou a falar, me ensinou pentear os cabelos e calçar sapatos. Me acolheu nas noites de frio e afastou todos os meus medos infantis… E assim se deu início ao romance mais bonito.

Obrigada por ter ficado durante aquelas noites de febre, mãe. Obrigada pelo nome e sobrenome, pelo abrigo e o laço indestrutível que cultivamos. Obrigada por ter aberto mão das noites de curtição e enfrentado o mundo de mãos dadas comigo. Devo a ti quem eu sou e tudo o que aprendi. Lhe devo meu caráter irrevogável, minha marra e minha força.

Uma sociedade machista e sexista nunca vai entender as entrelinhas dessa história. Te chamaram de vadia, irresponsável, perguntavam se na hora que fez tava gostoso… Mas o vilão sequer foi questionado por sua negligência. Deixa mãe, eles nunca compreenderiam um amor tão grande. Eles não tem capacidade para ler nossas páginas coloridas e fora do padrão. Esse não é um livro sobre duas princesas indefesas, as protagonistas aqui são guerreiras destemidas. É sempre uma honra dividir os holofotes contigo!


Atenciosamente, Sarah Santos.