Espelho

espelho

O relógio anuncia 7:00 A.M., mas acordo dez minutos antes do despertador, pois boas moças não se atrasam para afazeres cotidianos. Saco o celular, a agenda e o calendário afim de ouvir o mundo que me chama com urgência para a vida fora dos meus lençóis.Eleições nos Estados Unidos, crise econômica, desnutrição infantil, bolsa de valores, o trabalho de quinta-feira, a oportunidade perdida da semana e a oportunidade da semana que vem, as mídias sociais, a dengue, o terrorismo, o impeachment,o trânsito, o clima, a roupa para pegar na costureira. Tantas coisas me fazem tentar recordar quando foi que esqueci de mim.
Levanto preguiçosa após uma prece, cumprindo o ritual da matina. Ao caminhar pelo pequeno cômodo, cruzo meu olhar com o olhar de meu reflexo. E me permito hipnotizar. Todos esses traços de cansaço mesmo após uma noite dormida merecem um minuto de atenção. Observo o franzir da testa, as unhas descascadas, a aparência ansiosa, a sobrancelha por fazer. A feição mal humorada parece querer dizer algo:
“Está precisando hidratar o cabelo. Já disse que ama seus pais hoje? Deveria ser uma das primeiras coisas que faz no dia. Pare de adiar seus planos e conclua algo. Lembre-se que você é a única réu de sua própria insegurança. Seja uma lembrança bonita na vida das pessoas, jogue seus medos para longe e saia da zona de conforto. Deixe o celular de lado e vá atualizar-se de si. Entre menina e mulher, seja você mesma.”
…Quando reparo que meus olhos no reflexo dentro daquela moldura é o espelho de minha alma.

Sarah Santos

Texto vivo de sentimentos mortos

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Você pode ler esse texto ouvindo: Unwritten – Boyce Avenue/Diamond White

Ser escritor é foda. Traduzir os sentimentos em palavras exige sangue frio. Escrever é desafiar sua mente e coração todos os dias, perguntando: “o que você tem para mim hoje?”, e sacudir, amassar e espremer a alma até que saia algum verso, por menos poético que seja. Escrever é concretizar as dores e guardá-las em um armário, para estarem sempre a sua disposição quando precisar passá-las pro papel.

Aprendi sorrateiramente que ser um escritor também vai além disso. Pois qualquer um pode falar do que lhe acontece em volta, e isso é adoravelmente saudável. Vomitar emoções é preciso, para não morrer em um refluxo. Mas o verdadeiro artista escreve sobre o que nunca viveu, sensações que nunca experimentou… Ou até mesmo experiências das quais jamais quer viver novamente. Essa é a arte de provocar, de reciclar feridas.

E nessa reciclagem o lixo vira joia. As dores crescem e viram palavras, que se unem a outras palavras e viram versos, que quando cultivados… Dão origem as mais lindas criações. Por isso, perdi o medo de sofrer. Por isso Vinicius de Moraes casou-se nove vezes, por isso Carlos Drummond morreu do coração, por isso Mario Quintana sofria de alcoolismo. Ou você acha que os maiores gênios algum dia tiveram estabilidade?

Não ouso escrever sobre sentimentos ainda quentes, pois isso pode ser perigoso. Versificar a vida abre portas para o imaginário, e uma vez lá… Você não vai querer voltar. Mas arrisco dizer que a escrita é uma das armas mais poderosas já vistas… Literatura é calmaria, é o reflexo da alma, mas atinge pessoas como um tiro. Quando mais escreve, mais apontada torna-se sua mira.


Sarah Santos

A vida é uma dádiva

 

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Você pode ler esse texto ouvindo: I Lived – OneRepublic

De todos os meus devaneios poéticos sobre a vida, uma coisa é certa: ela é um presente. Sem romantização, sem aquela visão positiva de que no fim tudo dá certo, porque sequer existe certo. Viver é um pacote que recebemos com um arsenal de aprendizados. Podemos escolher entre aproveitar o presente até que se acabe ou deixá-lo armazenado em um armário, com medo de estragar.

Pra quem escolhe abrir o pacote, já adianto: todo o conteúdo é passageiro. Pessoas, culturas adquiridas, bens materiais e momentos marcantes. Mas de tudo, se extrai apenas o óbvio: uma aquisição. Nascemos nus, e com o passar do tempo (e das experiências), vamos nos vestindo de lições. No fim, estamos tão bem agasalhados que a carcaça torna-se pesada. Fica um pouco difícil andar vestido de tanta sabedoria, mas lhe garanto, as peças são muito bonitas.

É preciso paciência ao esperar o surgimento do arco-íris após uma chuva. É preciso perseverança para os dias difíceis. É preciso resiliência diante das decepções. É preciso sabedoria para aproveitar cada segundo dos bons momentos. Se for pra viver errado, é melhor guardar a embalagem. Afinal, não sabe viver? Não desce pra vida.

Você tem todo o direito de chorar se quiser, tem todo o direito de parar por um tempo caso sinta-se cansado. Você também pode se apropriar da dor do outro e segurá-lo quando parecer complicado. Mas não vá passar por cima de ninguém, viu? Não faça com os outros o que não gostaria que fizessem com você, pois as estrelas sempre se alinham novamente.

Deus nos deu o imprevisto na bagagem. E a ideia de não ter ideia do amanhã é incrível! Podemos lutar por um futuro melhor, mas ele continua sendo indomável, fruto de nossas próprias escolhas e ações. Você planta uma maçã hoje e a cultiva por um tempo… É provável que haja resultados, mas nem sempre ela germina.

Algo é certo: estamos caminhando de encontro para a morte. E isso não importa, pois a parte relevante é o que fazemos enquanto ela não chega. Você tem sorte por respirar, o que vier depois é lucro…

Sarah Santos.

 

Uma carta para minha mãe solteira

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Todos os contos de fada contam com uma princesa e um príncipe, uma história de amor e o esperado final feliz. Nossa história é alternativa! O galã se tornou sapo logo após o beijo, e tomou o papel de vilão. A mocinha sentiu-se desolada… O que faria sem o seu amor? E para o segundo capítulo, surgiu a mais sublime forma de afeto.

O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. O amor nunca perece. E nenhum príncipe é digno de nos oferecer isso. O escritor desse conto retirou um pedacinho seu para que eu existisse, para dar alegria a sua vida e ser o sentido da minha. Pergunto-me como o acaso te fez ser minha genitora.

A senhora me fez passarinho. Guardou-me por nove meses para que eu nascesse sadia, construiu nosso ninho com cuidado, saía em buscas intermináveis para me dar alimento. Me ensinou a andar, me ensinou a falar, me ensinou pentear os cabelos e calçar sapatos. Me acolheu nas noites de frio e afastou todos os meus medos infantis… E assim se deu início ao romance mais bonito.

Obrigada por ter ficado durante aquelas noites de febre, mãe. Obrigada pelo nome e sobrenome, pelo abrigo e o laço indestrutível que cultivamos. Obrigada por ter aberto mão das noites de curtição e enfrentado o mundo de mãos dadas comigo. Devo a ti quem eu sou e tudo o que aprendi. Lhe devo meu caráter irrevogável, minha marra e minha força.

Uma sociedade machista e sexista nunca vai entender as entrelinhas dessa história. Te chamaram de vadia, irresponsável, perguntavam se na hora que fez tava gostoso… Mas o vilão sequer foi questionado por sua negligência. Deixa mãe, eles nunca compreenderiam um amor tão grande. Eles não tem capacidade para ler nossas páginas coloridas e fora do padrão. Esse não é um livro sobre duas princesas indefesas, as protagonistas aqui são guerreiras destemidas. É sempre uma honra dividir os holofotes contigo!


Atenciosamente, Sarah Santos.

Dezessete

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A vida é um espelho, fornece com exatidão cada imagem que você reproduz. E eu precisei de dezessete anos para finalmente entender isso… O que não é ruim, afinal, muita gente cruza a linha de chegada e dá seu último suspiro sem saber disso. Mas carreguei um espelho pesado por toda minha estrada, dividindo com ele minha luz. Ele captou minuciosamente cada uma das minhas personalidades… Porque esse negócio de ser uma pessoa só a vida toda é chato demais! Eu prefiro passar o tempo todo me conhecendo, eu prefiro me surpreender, eu prefiro a novidade.

Com seis meses, aprendi a falar. Com seis anos, comecei a escrever. Com doze anos, me frustrei ao saber que não passaria de 1,58m. Com treze anos, descobri que os garotos olhariam para mim com malícia às vezes. Com quatorze anos, conheci o amor. Com dezessete, decidi a carreira que quero ter. E agora, com quase dezoito, adoraria voltar alguns anos atrás para tirar mais experiências ainda dessas datas.

Não é a toa que existe o dezessete entre o dezesseis e o dezoito. Esse é o final da ponte, a parte mais íngreme, onde você precisa caminhar com cuidado e segurar firme nas beiradas para não escorregar. E não pense que a recompensa é a maioridade! No fundo todos nós sabemos que nada vai mudar… Com dezoito anos, você fará as mesmas coisas que faria antes, só que dentro da lei.

Mas volta uma casa aí… Ou melhor, um ano. Dezessete é a idade do erro, de se perder um milhão de vezes só para se achar depois. E nesse jogo de esconde-esconde, você se conhece e se arma para o que lhe aguarda em frente.  Uma hora você chega lá, isso eu lhe garanto! Com alguns arranhões e machucados, mas ainda assim, em pé.

Durante toda essa viagem vi pessoas nascerem e morrerem, amei e me senti amada, fui cuidada por muitos e dona do meu nariz. Hoje, tenho a sorte de chegar até aqui com o coração limpo, sem rancores, sem coisas mal resolvidas. Talvez isso faça de mim mulher, mas ainda me sinto uma criança. Com menos tempo, mas ainda sim… Apenas uma criancinha.

Uma piscada e o calendário foi trocado dezoito vezes. Mais alguns passos e já é outubro. Opa, quase meia noite! E esse mesmo ritual será seguido dezenas de vezes até que se canse e vá dormir… No fim, o resultado é o mesmo: algumas vezes você triunfa, outras você aprende.

Eu escolhi sorrir

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Antes, achava que felicidade era um sentimento que lhe atingia quando algo bom acontecia. Então, esperava por esses valiosos instantes e quando chegavam, os agarrava com total força. Mas momentos bons têm prazo de validade, afinal, essa brincadeira chamada vida é feita de altos e baixos.

Mas a tal da felicidade jamais deve ser proporcional as dádivas, ela é uma escolha. E quando você escolhe ser feliz, busca por isso, pensa, respira e deixa sentir na pele, a felicidade invade a alma como uma onda que arrasta tudo o que vê pela frente. Depois que adquirir a alegria como dom, não vá reclamar, viu?

Mesmo que a subida seja íngreme, mesmo que o dia esteja extremamente difícil, até mesmo quando a dor for forte o bastante para entregar os pontos… Quem é guerreiro não se rende. “Quê história é essa de tristeza? Essa palavra não existe no meu vocabulário”. Não se conformar com as ventanias impiedosas da vida é divino, buscar um pontinho amarelo em uma mancha preta é coisa para gente grande com coração de criança.

E com isso, descobrimos finalmente que a felicidade não é um sentimento exclusivo para momentos bons, ou uma escolha, e sim um estado de espírito! Ser feliz é muito mais que esperar por surpresas incríveis, é transformar a incerteza em satisfação com o extraordinário poder da positividade. Virtudes como paciência, resiliência e gratidão te levam ao oasis da felicidade… E no fim, ela é um misto de qualidades simples que nos fazem valorizar a vida como ela é.

Contudo, eu escolhi sorrir porque sou maior que todas as pessoas infelizes que já tentaram me puxar para baixo um dia. Eu escolhi sorrir porque ninguém merece que eu sacrifique o que tenho de melhor. Eu escolhi sorrir para aliviar conflitos, concertar um coração exausto, conquistar o mundo e as pessoas que nele habitam. E mesmo quando não tiver alternativa, vou escolher sorrir.


Atenciosamente, Sarah Santos.

Abrace a noite!

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Eu poderia fotografar todos os desenhos que as nuvens formam e lhes entregar pelo correio. Eu poderia pintar um vestido com o azul do céu e presentear-lhe embrulhado com uma fita bonita. Eu poderia deixar que o calor do sol me consumisse, para lhe aquecer em um abraço aconchegante depois. Mas está escuro, menina.

Sei o quanto você aprecia o dia, mas a noite chega para todos. Também sei que isso lhe assusta, e que a possibilidade de enfrentar uma madrugada inteira sozinha lhe deixa aflita. Mas aqui vai: você pode contar comigo. Eu não vou jurar para você que o escuro será suave e o breu irá embora em breve… Porque nem sempre é assim. Mas garanto que seu sorriso é iluminado o bastante para irradiar toda a cidade.

Quando sentir medo, pode bater no meu portão. Se não quiser sair, faça uma ligação e estarei por perto em um minuto. Mas… Se resolver arriscar-se, e abraçar a noite, peço para que deixe-me ser seu guia. Entendo sua desconfiança com todos à sua volta, já que algumas pessoas deixaram cicatrizes no seu coração… Mas tenha só mais um pouquinho de fé, e se apoie em mim.

Podemos dançar com as estrelas! Podemos admirar o lampejo discreto da lua, e assim, vou lhe mostrar que a beleza também mora nas sutilezas. Podemos contar os vagalumes, podemos sair para conhecer cada canto de uma cidade adormecida. Podemos sentar sob a calçada, enquanto você conta sobre sua vida e eu só consigo prestar atenção naquela pinta da sua bochecha… Ou posso compartilhar com você todo meu arsenal de piadas sem graça, se isso te fizer sorrir.

Sei que vai embora quando o dia chegar, pois não gastaria tanto tempo com um mero trovador. Vou sorrir amarelo quando se despedir de mim, e guardar todas aquelas lembranças, mesmo que não consiga te enxergar bem nelas. Mal sabe, que estarei esperando a noite chegar novamente para você voltar.


A Poem, A Day: segundo dia – O céu de hoje

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